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Proteção de papelão
© Lenise Resende
O calor estava
insuportável. O ventilador de teto não conseguia refrescar o
ar. Sentir, o cabelo molhado de suor, encostando no pescoço,
aumentava o desconforto. Prendê-lo ou até mesmo lavá-lo, não
me faria sentir melhor. O banho só resolveria se fosse de
banheira e durasse algumas horas. Mas, haveria desconforto,
também, no pós banho. A noite não seria melhor, porém, não
haveria mais o sol batendo nas paredes do edifício e no
asfalto da rua.
Antes de dormir, fui verificar se ainda havia um pedacinho
de janela para ser aberto. Do outro lado da rua, debaixo da
convidativa marquise do edifício da esquina, vi muitas
caixas de papelão. Um grupo de mais ou menos vinte meninos
de rua, preparava-se para dormir. As caixas, grandes e
novas, estavam arrumadas formando boxes individuais. Quem
passasse por perto, não invadiria a privacidade das crianças
dormindo. Fiquei com a impressão, de que procuravam
abrigar-se das ameaças do mundo. Pela manhã, em grupo,
seriam eles que ameaçariam todo mundo ao redor.
Acordei, no meio da madrugada, com o vento trazendo a chuva
forte até a minha cama. Lembrei das crianças e das caixas.
Será que as caixas serviram de proteção?
Enquanto fechava a janela, tentei ver se havia movimento, no
meio do papelão molhado e desmontado. Todos dormiam. Mas
como? Se acordei por causa de respingos na cama seca, como
dormir sobre papelão molhado?
No dia seguinte, observei os meninos, animados, arrumando
outras caixas, grandes e novas, antes de dormir. O calor
estava suportável e a chuva era fina. O meu desconforto, era
provocado pela gripe. O vento e a chuva da madrugada não me
fizeram bem. As crianças, do outro lado da rua, riam alto,
apesar do vento e da chuva...
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