Uma sopa quase indigesta - Lenise Resende
Uma sopa quase indigesta
© Lenise Resende
 

 Assim que abriu a porta de casa, Pedro Coelho, ouviu a esposa dizer:
- Seu filho tem dever de casa e pediu para você ajudar.
- Logo eu? Tenho que dormir cedo. Esqueceu que amanhã vou viajar para Copenhagen?
- Você sim que vive chamando nosso coelhinho de jumento... Você que gosta de ser a palmatória do mundo.

Ele demorou no banho. Sorveu a sopa do jantar bem devagar, regurgitou insultos e rosnou revides. Mas não escapou da tarefa.
- Pai, é só você dizer o significado de umas palavrinhas.
- Está bem! Pode ir falando!
- Derrogatório.
- Diz outra.
- Cosmológico.
- Outra.
- Jurisprudência.
- Fala tudo de uma vez só. - disse o pai impaciente.
- Honoris causa, irisação, fortuito, arguível, bastião, marco, rodízio e cartografia.
- Vai apanhar o dicionário.
- O pai dos burros?
- Está fazendo gracinha?
- Não pai, é que ele está todo ...
- ... carcomido? Não faz mal. Vou procurar as palavras para você e colocar um marcador em cada página. Depois vou dormir.
- Está certo pai.
- Se precisar de ajuda, pede aí para a rainha da equidade. - disse o pai, alteando a voz.
- Está me chamando de burra? - perguntou a mãe, saindo da cozinha.
- Não sabe o que é? Vê no dicionário. E aproveita para ajudar seu filho, porque esse aí puxou a mãe. É um ...
- Um... um? - a mulher indagou pronta para mais uma discussão.
- ... coelhinho. Boa noite!



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