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Mel
© Lenise Resende

 Desde o dia do nascimento, Melissa foi chamada pelo apelido de Mel. Seus doces olhos castanhos, o pelo cor de mel e seu jeitinho meigo foram os responsáveis pela escolha. Seus irmãos se aconchegavam uns aos outros mas, Mel, preferia ficar juntinho da mãe. A cada tentativa dela, sua mãe, delicadamente, empurrava-a para junto dos irmãos. De olhinhos fechados, guiando-se pelo faro, Mel ia se chegando, novamente, delicadamente.

Aos dois meses e muitos empurrões depois, Mel foi levada, por seu futuro dono. Ele havia se encantado com sua meiguice, logo no primeiro olhar que deu na ninhada. Solteiro e morando sozinho, a única visita que aparecia em seu apartamento, era a faxineira. Sendo assim, Mel acostumou-se a passar os dias sozinha.

As noites, eram repetição dos seus dois primeiros meses. O dono sentava-se numa poltrona e ali jantava, com o prato na mão, vendo o noticiário na televisão. Quando se cansava, lia o jornal ou um livro. Aos seus pés, deitada no chão, de olhinhos fechados, guiando-se pelo faro, Mel ia se chegando. E, delicadamente, encostava em seus pés - ou melhor dizendo, em seus chinelos. Quando percebia a presença de Mel, ele empurrava-a, delicadamente, para longe.

Quando Mel fez três anos, seu dono começou a namorar. No início, ele só voltava em casa para dormir e trocar de roupa. Depois, sua namorada começou a aparecer com frequência. Mel não gostava da estranha que não gostava de cães. Quando ela aparecia, Mel era gentilmente levada para a cozinha. Quando seu dono casou-se, Mel ganhou um canto na área, debaixo de um móvel. Era proibida de aparecer no resto da casa. Passava os dias e noites sozinha.

Quando Mel fez seis anos, a casa ganhou um novo morador. Da área, ela escutava as vozes das muitas visitas que apareciam no apartamento e o chorinho do novo morador. Dele, Mel só via as roupinhas no varal. Conhecê-lo mesmo, de verdade, só aconteceu quando ele começou a dar os primeiros passos. Nesta época, sempre que encontrava a porta da cozinha aberta, ele corria para a área.

Quando o novo morador fez dois anos, Mel recebeu um laço cor de rosa, no pescoço. E, colocada num lindo cesto, entregue, como presente, ao aniversariante. Este, acostumado com seus bichinhos de pelúcia, puxava-a de lá para cá, agarrando-a pelos pelos. Ela, desacostumada do contacto físico, sentia imensa dor e, seus olhinhos, enchiam-se de lágrimas.

Mel sofria e, sempre que podia, corria para esconder-se na área. Os pais do menino, decidiram, então, ensiná-lo a brincar com a cachorrinha. Colocavam-na sobre um sofá, seguravam uma das mãos do menino e, deslizavam suavemente, sobre os pelos cor de mel. Mel não chorava mas, também, não mostrava satisfação.

Com o tempo, os donos começaram a irritar-se com a passividade de Mel, diante do carinho recebido. Diziam ao filho: "Afaste-se dela, ela não gosta de carinho. Vai acabar mordendo você." O menino chorava e, corria atrás de Mel, para acariciá-la. Para acalmá-lo, eles prometiam: "Se você obedecer, no próximo aniversário, ganha um cachorrinho!" "E a Mel?" ele indagava. "A Mel vai pro canil, viver com outros cachorrinhos. Ela não gosta mesmo de gente!"


 (Conto da Coletânea Contos Vol. I - Usina de Letras e Papel Virtual Editora - 2004)




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